Delegada, esposa de réu acusado de matar gari em BH, pode perder o cargo

Delegada de MG é investigada por possível conivência no homicídio cometido pelo marido com sua arma

A delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, esposa do empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, réu acusado de matar o gari Laudemir de Souza Fernandes, é alvo de investigação interna da Polícia Civil de Minas Gerais por possível conivência no crime.

A apuração avalia se Ana Paula sabia do homicídio, cometido com sua arma, e se omitiu-se ao não denunciar o marido.

Polícia instaura processo contra delegada por possível conivência

A Corregedoria-Geral da Polícia Civil abriu um Processo Administrativo Disciplinar para apurar se Ana Paula cometeu infrações graves, descumpriu deveres funcionais ou adotou condutas incompatíveis com o cargo. A portaria que formalizou a investigação aponta indícios que justificam a apuração detalhada.

Três delegados — Rodrigo Baptista Damiano, Karla Silveira Marques Hermont e Daniel de Andrade Ribeiro Teixeira — foram designados para coletar provas, ouvir a servidora e elaborar um relatório final, com prazo máximo de 90 dias para conclusão, conforme prevê a legislação.

Defesa de Ana Paula diz que deve se manifestar após a regular intimação e disponibilização da acusação. “Agora é que será concedida a ela o contraditório e a oportunidade de se defender, o que não ocorreu anteriormente”, afirmou o advogado Leonardo Avelar Guimarães.

Arma da delegada usada no homicídio e monitoramento do caso

As investigações indicam que Renê da Silva Nogueira Júnior usou a arma registrada em nome da esposa para matar Laudemir de Souza Fernandes. A Corregedoria apurou ainda que Ana Paula acessou o sistema da Polícia Civil para acompanhar a investigação do crime.

Segundo os indícios, a delegada teria conhecimento do homicídio, mas não denunciou o marido nem tomou providências para sua prisão, configurando possível omissão grave no exercício da função pública. Esses fatos embasam o processo que pode levar à sua demissão.

Afastamento por saúde e salário mantido

Ana Paula está afastada desde agosto do ano passado por questões de saúde, tendo solicitado licença dois dias após a prisão do marido.

A licença foi renovada em dezembro, e seu retorno estava previsto para fevereiro, sem confirmação pela Polícia Civil até o momento.

Mesmo afastada e sob investigação, a delegada mantém seus rendimentos integrais. Em outubro, recebeu salário bruto de R$ 25,4 mil, conforme dados oficiais.

Versões do empresário e acusações no processo

Renê admitiu o crime em agosto de 2025, mas depois mudou de versão. Primeiro, ele disse que atirou e matou Laudemir — essa é a versão aceita pela Justiça. Depois, ele afirmou que o caso havia sido um acidente, além de narrar que atirou para o alto após uma discussão com um grupo de garis, e que só soube da morte horas depois. Por fim, ele alega que Laudemir teria sido morto por membros de uma facção que atuaria na região do crime.

Renê afirmou ter confessado o crime após ameaças feitas por policiais, que teriam condicionado sua colaboração à proteção da esposa. Também alegou que andava armado devido a ameaças de um antigo sócio, supostamente ligado ao jogo do bicho em Belo Horizonte.

Julgamento marcado e crimes atribuídos ao empresário

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais determinou que Renê será julgado por júri popular, ainda sem data marcada. A decisão foi da juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, do Tribunal do Júri 1º Sumariante de Belo Horizonte, e pode ser contestada por recurso.

A magistrada manteve a acusação de homicídio triplamente qualificado, com base nas provas que indicam que o empresário matou Laudemir por motivo fútil, colocou em perigo a segurança pública ao atirar em via pública e dificultou a defesa da vítima.

Além do homicídio, Renê responde por ameaça contra a motorista do caminhão de lixo, tentativa de fraude processual e porte ilegal de arma de fogo, ampliando a gravidade das acusações.

Na época, defesa de Renê disse ter recebido com surpresa a decisão da Justiça mineira.

Em nota, os advogados Bruno Rodrigues e Thiago Minagé alegaram haver “inúmeras alegações e comprovações de irregularidades formais na condição das investigações” do caso, mas ressaltaram respeitar “a referida decisão e informamos que manusearemos o respectivo recurso para que os excessos acusatórios e as provas nulas sejam reconhecidas e retiradas dos autos”.

 

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