Vivendo dias emocionalmente difíceis, decidi fazer um passeio em família para espairecer e recarregar as energias. A ideia era simples: aproveitar um dia na praia com as pessoas que amo. Mas, infelizmente, tudo tomou um rumo completamente inesperado.
Seguimos em dois carros rumo ao litoral, com destino à Prainha Branca, em Guarujá. Saímos de São Bernardo por volta das 5h da manhã e chegamos à praia por volta das 8h. O objetivo era conseguir um bom lugar, à beira-mar, em um dos quiosques mais badalados da região. Acompanhavam-me minhas duas filhas, Gabriela (14) e Giovanna (8), minha priminha de 12 anos que estava sob minha responsabilidade, meu esposo, meu irmão Rafa, minha prima Fernanda, nossos padrinhos Re e Rubi, e a filha deles, Bia (9).
O dia começou perfeito. As crianças estavam felizes, o clima era agradável, tudo corria dentro do planejado. Durante a manhã, avisei: “Vamos voltar cedo, para não pegar a trilha no escuro”. E assim fizemos. Antes das 17h, já estávamos de saída. Tomamos uma ducha no “Laricas” (point famoso na Prainha) e começamos a trilha de volta.
Organizados em fila indiana: os homens à frente, as crianças no meio, e as mulheres atrás. Conversávamos, ríamos, comentávamos o quão bom havia sido o dia. Porém, o sol começou a se pôr rapidamente e a trilha foi ficando escura. E então, aconteceu o inimaginável.
Nosso padrinho gritou: “Olha a cobraaa!”
Minha filha Giovanna vinha logo atrás dele, ao lado da Bia. Em seguida, estava minha priminha Mary, que perdeu a mãe há menos de um ano. O pânico tomou conta. Giovanna começou a gritar desesperada: “Ela me picou! Ela me picou!”. Por um instante, achei que era uma brincadeira de mau gosto. Mas logo percebi que era real.
Vi meu irmão correndo, tentando encontrar e matar a cobra, enquanto meu esposo corria em direção à nossa filha. A ficha caiu: minha filha foi picada por uma cobra.
A Bia, em choque, correu em direção a um barranco – típico da trilha para a Prainha. Minha amiga Re, num ato de reflexo rápido, conseguiu segurá-la. A Bia gritava: “Eu vi! Eu vi! A cobra picou a Gi!”
Meu mundo parou. Meu marido pegou a Giovanna no colo, e meu irmão revezou com ele, colocando-a nos ombros e correndo pela trilha escura. Mary, em prantos, entregou o celular com a lanterna ligada. Todos em estado de choque, chorando, gritando. A adrenalina, o medo, a impotência… sentimentos à flor da pele.
Tentei manter a calma para acalmar as outras crianças e minha prima Fernanda. Minha filha mais velha, Gabi, entrou em estado de choque. Estava paralisada, não conseguia seguir nem para frente nem para trás.
Chegamos à balsa. Meu marido já havia corrido na frente, pedindo para que esperassem. Eles não queriam esperar, mas entenderam a gravidade da situação quando ouviram: “Sou a mãe da menina picada por uma cobra!”. Conseguimos embarcar por pouco.
Durante a travessia, Giovanna dizia que a dor aumentava e ficou sonolenta. Disse que a cobra era verde, pequena, parecia uma folha. Quando a balsa atracou, meu marido pulou ainda em movimento e correu buscar o carro. Seguimos apressados, sem saber a direção do hospital. Waze falhando, celulares quase sem bateria, e minha filha cada vez mais fraca.
Sem rumo, viramos uma esquina e, como um milagre, vimos uma viatura do SAMU parada num posto. Meu marido explicou a situação, e os socorristas prontamente ligaram a sirene e nos mandaram segui-los. No hospital geral de Bertioga, a emergência estava lotada com dois casos de afogamento. Minha filha foi inicialmente encaminhada para a retaguarda.
Ali começou a pior angústia da minha vida. Giovanna piorava rapidamente. Disse ao pai: “Pai, eu vou morrer?”. A resposta foi firme: “Não, filha! Você vai ficar bem!”. Mas sua temperatura caiu para 22 graus, a frequência cardíaca subiu para 140 e a respiratória, para 37. Começou a tremer intensamente, quase como se estivesse convulsionando. Me vi ali, mãe e profissional de enfermagem, impotente. Não suportei. Saí da sala desorientada e chorando.
Do lado de fora, vi uma mãe gritando de dor. Havia perdido o filho de 18 anos, afogado na mesma praia em que estávamos. Aquele choro… jamais esquecerei. A dor de uma mãe que perde um filho é visceral. E eu, ali, vendo minha filha entre a vida e a morte.
Minha família e amigos iniciaram uma corrente de oração. Igrejas pararam seus cultos para interceder pela vida da Giovanna. Fui chamada de volta à sala, onde minha filha já recebia o soro antiofídico. Me ajoelhei ao lado dela, orei com toda a força da minha fé e sussurrei: “Talita Cumi” – levanta-te, menina.
Os exames mostraram comprometimento dos rins, alterações no fígado e no sangue. A suspeita era de picada de filhote de jararaca. Precisávamos de vaga na UTI urgente. A transferência para Santos não saía. O convênio recusava buscar. Foram dias de angústia, mas minha fé se manteve firme.
No terceiro dia, Giovanna começou a apresentar melhoras surpreendentes. Contatei minha amiga Vanessa, que me contou que havia sonhado com a Gi indo para a UTI e acordado angustiada. Ela e a prima Terciane moveram contatos, e finalmente a direção do hospital se mobilizou. Nos ofereceram uma ambulância do SUS para levar Giovanna em segurança para São Bernardo.
Ela deu entrada no Hospital Santa Helena no dia 05/03, ainda com exames alterados e o pé bastante edemaciado. Mas, com o tempo, ela foi se recuperando de forma impressionante. No dia 09/03, para a glória de Deus, recebeu alta andando. Fez questão de agradecer, um por um, os profissionais que cuidaram dela.
Fica aqui o meu alerta às mães: a trilha da Prainha Branca é linda, mas perigosa. Animais peçonhentos são comuns. Não há sinalização, nem orientações de emergência. Se não fosse o socorro ágil e o soro administrado rapidamente, minha filha talvez não estivesse mais aqui. Cuidado redobrado sempre!
Minha gratidão eterna a todos que oraram, intercederam e nos apoiaram. E aos profissionais que cuidaram da minha filha com tanto carinho, empatia e dedicação: obrigada. Deus usou cada um de vocês para salvar a vida da minha pequena guerreira.







